Hamlet: A Tragédia de um Príncipe
Por Prof. Wagner Montanhini
Introdução
"Hamlet", uma das obras mais célebres de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601, é uma tragédia que explora temas universais como vingança, moralidade, loucura e a complexidade da natureza humana. A peça segue a história do príncipe Hamlet da Dinamarca, que busca vingar a morte de seu pai, o rei Hamlet, assassinado por seu tio Cláudio. A narrativa é rica em conflitos internos e dilemas éticos, refletindo as tensões da condição humana.
Enredo
A trama se inicia com a morte do rei Hamlet, que deixa o reino em luto. Cláudio, irmão do falecido rei, casa-se rapidamente com Gertrudes, a viúva, e assume o trono. O príncipe Hamlet retorna à Dinamarca e logo se depara com o fantasma de seu pai, que revela ter sido assassinado por Cláudio. O espectro pede que Hamlet busque vingança .
A partir desse momento, Hamlet entra em uma profunda crise existencial. Ele finge estar louco para investigar a veracidade das palavras do fantasma e para disfarçar suas intenções. Ao longo da peça, ele se vê preso entre o desejo de vingar seu pai e as implicações morais de suas ações. Essa hesitação leva a uma série de eventos trágicos que culminam em um final devastador.
Temas Principais
Vingança e Moralidade: O tema central da obra é a busca por vingança. Hamlet luta com a moralidade de assassinar Cláudio, questionando se a vingança é justificada ou se ele se tornará tão corrupto quanto seu tio . Essa luta interna reflete questões filosóficas sobre justiça e ética.
Loucuras e Aparências: A questão da sanidade permeia toda a peça. Hamlet finge estar louco como parte de seu plano para descobrir a verdade sobre a morte de seu pai. No entanto, sua atuação provoca dúvidas sobre sua verdadeira sanidade e leva à tragédia
A Condição Humana: A famosa linha "Ser ou não ser, eis a questão" encapsula a luta de Hamlet com sua própria existência e o sentido da vida. Ele reflete sobre o sofrimento humano e as incertezas da vida, tornando-se um símbolo da melancolia e do pessimismo (Revista Sisifo).
Relações Familiares: As dinâmicas familiares são complexas na obra. A relação entre Hamlet e sua mãe Gertrudes é tensa, especialmente após seu casamento com Cláudio. Além disso, o amor de Hamlet por Ofélia é tragicamente afetado pela corrupção ao seu redor (Conjur).
Análise dos Personagens
Hamlet: O protagonista é um personagem multifacetado que representa a luta interna entre ação e inação. Sua hesitação em vingar seu pai é frequentemente interpretada como um reflexo de sua profunda introspecção e análise moral
Cláudio: O antagonista é um rei manipulador que representa a corrupção do poder. Sua culpa pelo assassinato do irmão o torna um personagem complexo que também enfrenta suas próprias consequências.
Ofélia: A filha de Polônio e objeto do amor de Hamlet, Ofélia simboliza a fragilidade diante das pressões sociais e familiares. Sua eventual loucura e suicídio são trágicos reflexos do impacto da corrupção ao seu redor
A crise interior de Hamlet, o protagonista da tragédia "Hamlet" de William Shakespeare, é um dos aspectos mais complexos e fascinantes da obra. Através de suas reflexões e dilemas, a peça explora temas profundos como a dúvida, a moralidade, a vingança e a condição humana. A seguir, examinaremos como essa crise é retratada ao longo da narrativa.
1. O Impacto da Morte do Pai
A peça começa com a morte do rei Hamlet, pai do príncipe, que desencadeia uma série de eventos trágicos. A revelação do fantasma do rei, que afirma ter sido assassinado por seu irmão Cláudio, coloca Hamlet em uma posição de conflito moral. Ele é confrontado com a tarefa de vingar a morte do pai, mas essa missão é complicada por sua hesitação e dúvida sobre a moralidade da vingança Desde o início, Hamlet expressa sua angústia e desespero em relação à corrupção que permeia a corte dinamarquesa.
2. Dúvida e Hesitação
Um dos traços mais marcantes da crise interior de Hamlet é sua dúvida constante. Ele questiona não apenas a veracidade das palavras do fantasma, mas também suas próprias motivações e capacidades. O famoso monólogo "Ser ou não ser, eis a questão" encapsula sua luta existencial. Nesse momento, Hamlet pondera sobre a vida e a morte, refletindo sobre o sofrimento humano e as incertezas que o cercam (Revista Sísifo). Essa dúvida o paralisa, impedindo-o de agir decisivamente em várias ocasiões.
3. A Loucura como Mecanismo de Defesa
Hamlet adota a estratégia de fingir-se de louco como uma forma de lidar com sua situação. Essa "loucura" serve como um escudo para explorar as verdadeiras intenções dos outros personagens sem levantar suspeitas . No entanto, à medida que a trama avança, fica difícil discernir se sua loucura é genuína ou apenas uma atuação. Essa ambiguidade reflete sua crescente confusão interna e o peso emocional que ele carrega.
4. Conflitos Relacionais
Os relacionamentos de Hamlet também são afetados por sua crise interior. Sua relação com Ofélia é marcada por amor e dor; ele se afasta dela em meio ao seu luto e confusão emocional. Ofélia, por sua vez, entra em um estado de desespero que culmina em sua morte trágica . A incapacidade de Hamlet de agir não apenas afeta sua própria vida, mas também leva à ruína das pessoas ao seu redor.
5. Consequências da Inação
A inação de Hamlet tem consequências devastadoras. Ao longo da peça, ele perde oportunidades cruciais para vingar seu pai e restaurar a ordem moral no reino. Sua procrastinação resulta na morte de vários personagens importantes, incluindo Polônio, Ofélia e até mesmo sua mãe, Gertrudes (Gonzalez Blasco). O clímax trágico revela que suas hesitações foram fatais não apenas para ele mesmo, mas para todos os envolvidos.
A teoria da cisão do Eu de Sigmund Freud oferece uma perspectiva intrigante para entender a crise interior de Hamlet na obra homônima de William Shakespeare. Essa teoria, que descreve a divisão do eu entre diferentes instâncias psíquicas, pode ser aplicada para analisar os conflitos internos do príncipe dinamarquês, suas hesitações e suas ações ao longo da peça.
A Teoria da Cisão do Eu
Freud propôs que o eu (ou ego) é dividido em diferentes partes que lidam com desejos, impulsos e normas sociais. Essa cisão ocorre quando há um conflito entre os impulsos instintivos e as proibições morais impostas pela sociedade. O resultado é uma luta interna que pode levar à inação ou a comportamentos autodestrutivos (Favero & Binda) .
A Crise de Hamlet
Conflito entre Desejo e Moralidade: Desde o início da peça, Hamlet é confrontado com a revelação do fantasma de seu pai, que o incita a vingar sua morte. No entanto, essa tarefa de vingança entra em conflito com seus valores morais e sua aversão à violência. A cisão do eu se manifesta em sua hesitação em agir, refletindo uma batalha interna entre o desejo de vingar seu pai e a moralidade que o impede de seguir adiante .
A Loucura como Mecanismo de Defesa: Hamlet finge estar louco como parte de sua estratégia para investigar a verdade sobre a morte de seu pai. Essa "loucura" pode ser vista como uma forma de defesa contra as pressões sociais e emocionais que ele enfrenta. No entanto, essa atuação também revela sua fragilidade mental e emocional, resultando em um estado de confusão que o impede de tomar decisões claras .
Complexo de Édipo: Freud também sugere que a relação de Hamlet com sua mãe, Gertrudes, e seu tio, Cláudio, pode ser interpretada através do Complexo de Édipo. A presença do tio como figura paterna substituta e o casamento rápido com Gertrudes criam um ambiente emocionalmente carregado para Hamlet. Sua aversão ao tio pode ser vista como um reflexo dos desejos reprimidos em relação à sua mãe, intensificando ainda mais sua crise interna (Conjur).
A Inação como Resultado da Cisão: A incapacidade de Hamlet de vingar a morte do pai é um resultado direto da cisão do eu. Ele se vê preso entre seus impulsos instintivos e as normas morais que aprendeu ao longo da vida. Essa inação leva a consequências trágicas não apenas para ele, mas também para aqueles ao seu redor, culminando em uma série de mortes desastrosas (Favero & Binda).
A teoria da cisão do Eu de Freud proporciona uma lente valiosa para entender a complexidade da crise interior de Hamlet. A luta entre seus desejos e valores morais não apenas define seu caráter, mas também serve como um microcosmo das tensões universais da condição humana. Através dessa análise psicanalítica, podemos apreciar ainda mais a profundidade emocional e filosófica da obra de Shakespeare, reconhecendo Hamlet não apenas como um príncipe em busca de vingança, mas como um ser humano lutando com as intricadas realidades da vida e da morte.
Conclusão
A crise interior de Hamlet é um retrato poderoso da luta humana contra as incertezas da vida e os dilemas morais que enfrentamos. Através de suas reflexões profundas e conflitos emocionais, Shakespeare nos apresenta um personagem que encarna as complexidades da condição humana. A tragédia do príncipe dinamarquês nos convida a refletir sobre nossas próprias crises internas e as consequências das nossas escolhas.
"Hamlet" é uma obra rica em complexidade emocional e filosófica que continua a ressoar com públicos contemporâneos. Através da narrativa trágica do príncipe dinamarquês, Shakespeare nos convida a refletir sobre questões profundas da condição humana — desde o dilema moral da vingança até as incertezas da existência. A peça permanece relevante não apenas como uma história de tragédia pessoal, mas também como uma exploração atemporal dos conflitos internos que todos enfrentamos.
Referências
FAVERO, Antonio Vitor; BINDA, Suderlan Tozo. "Hamlet de Shakespeare: uma análise a partir da Teoria da Cisão do Eu de Sigmund Freud". Revista Sísifo, n° 14, Julho/Dezembro 2021.
Revista Sisifo. "Hamlet de Shakespeare: uma análise". Disponível em: http://www.revistasisifo.com/2022/03/hamlet-de-shakespeare-uma-analise.html. Acesso em: 24 nov. 2024.
Conjur. "Hamlet, um príncipe pessimista". Disponível em: https://www.conjur.com.br/2018-jan-14/embargos-culturais-hamlet-principe-pessimista-fatalista-relativista-vingativo. Acesso em: 24 nov. 2024.
