Angústia e Melancolia na Psicanálise: Freud, Klein e Lacan Explicam o Sofrimento Psíquico
Por Wagner Montanhini
Angústia e Melancolia na Visão Psicanalítica: Entre o Desejo, a Perda e o Sofrimento Psíquico
Na psicanálise, o sofrimento humano não é compreendido como mero desequilíbrio químico ou anomalia comportamental, mas como o resultado de conflitos inconscientes que atravessam a história, os afetos e as relações do sujeito. Nesse contexto, dois estados profundamente humanos — e frequentemente contemporâneos — merecem atenção especial: a angústia e a melancolia. Embora muitas vezes confundidos ou simplificados, esses fenômenos revelam dimensões complexas da vida psíquica e são centrais para a compreensão do funcionamento do aparelho psíquico.
Este artigo explora, com base nas principais contribuições da psicanálise — desde Freud até autores contemporâneos —, o que caracteriza a angústia e a melancolia, como elas se diferenciam, como se articulam e por que são tão relevantes para a clínica psicanalítica e para a compreensão subjetiva do mal-estar na cultura.
1. A Angústia: Um Sinal de Alarme do Inconsciente
A angústia, na psicanálise, não é apenas um “sentimento ruim” ou uma reação desproporcional. Trata-se de um sinal de alerta emitido pelo aparelho psíquico diante de uma ameaça — muitas vezes inconsciente — que coloca em risco a integridade do Eu. Freud, ao longo de sua obra, revisou profundamente sua compreensão da angústia, passando de uma visão mais fisiológica para uma interpretação estrutural e simbólica.
1.1. As Três Formas de Angústia em Freud
Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud distingue três formas principais de angústia:
Angústia real: Surge diante de um perigo externo concreto (ex.: um acidente, uma ameaça física). É uma resposta adaptativa que prepara o organismo para a fuga ou a defesa.
Angústia neurótica: Relacionada a impulsos inconscientes — principalmente de origem sexual ou agressiva — que ameaçam romper as barreiras do Eu. Aqui, o perigo não está fora, mas dentro: é o temor de que desejos reprimidos venham à tona e desestabilizem a identidade consciente.
Angústia moral: Originada no conflito com o Supereu, a instância psíquica que internaliza normas, ideais e proibições. Nesse caso, o sujeito experimenta culpa, vergonha ou medo de punição — não por algo que fez, mas por algo que desejou ou pensou.
1.2. A Angústia como Antecedente da Repressão
Uma virada decisiva na teoria freudiana ocorre quando ele afirma que a angústia não é consequência da repressão, mas seu sinal prévio. Ou seja, o Eu reprime um desejo porque sente angústia diante dele. Isso coloca a angústia como um mecanismo de defesa primário: ela antecipa o perigo e mobiliza estratégias para evitá-lo (recalque, formação reativa, deslocamento, etc.).
Essa ideia é crucial: a angústia não é um "erro" do psiquismo, mas um modo de proteção — ainda que, em excesso ou desregulação, torne-se ela mesma fonte de sofrimento.
2. A Melancolia: O Luto que Não se Resolve
Se a angústia é um sinal de perigo iminente, a melancolia é o eco de uma perda não elaborada. Em seu ensaio seminal "Luto e Melancolia" (1917), Freud estabelece uma distinção fundamental entre esses dois processos:
O luto é uma resposta normal à perda de um ente querido, um ideal ou um objeto amado. Embora doloroso, é um processo temporário e integrador, no qual o Eu desinveste gradualmente o objeto perdido e volta a investir no mundo.
A melancolia, por outro lado, é uma condição patológica, marcada por um empobrecimento profundo do Eu, autorreprovação, inibição e, em casos extremos, ideias de suicídio.
2.1. As Características da Melancolia
Freud identifica três marcas essenciais da melancolia:
Profunda desvalorização do Eu: O melancólico se vê como inútil, pecador, sem futuro. Mas, como Freud observa, essa autocrítica não é realmente dirigida a si mesmo: é a voz do objeto perdido internalizado, falando através do Supereu.
Perda inconsciente ou ambígua: Muitas vezes, o melancólico não sabe o que perdeu. A perda pode ser simbólica (um ideal, uma função, um papel) ou referente a um objeto que foi ao mesmo tempo amado e odiado.
Identificação com o objeto perdido: Como não consegue abandonar o objeto (por ambivalência emocional), o Eu o incorpora. Assim, a agressividade que antes se dirigia ao objeto volta-se contra o próprio sujeito.
“O melancólico se comporta como se estivesse dividido em duas partes: uma que julga e outra que é julgada. Essa divisão é a fonte de seu sofrimento.”
— Freud, Luto e Melancolia (1917)
2.2. A Falha no Luto
A diferença crucial entre luto e melancolia está na capacidade de simbolizar a perda. No luto, o sujeito reconhece o que foi perdido e pode, com o tempo, desligar-se dele. Na melancolia, há uma falha nesse processo: o objeto permanece preso no psiquismo, tornando-se um "fantasma" que corrói o Eu de dentro.
3. Entre a Angústia e a Melancolia: Conexões e Divergências
Embora distintas, angústia e melancolia frequentemente coexistem. Muitos pacientes melancólicos relatam episódios de angústia aguda, e muitos ansiosos apresentam traços melancólicos. Entretanto, as dinâmicas psíquicas subjacentes são diferentes:
A angústia, portanto, ainda preserva uma esperança de ação: fugir, lutar, evitar. A melancolia, por sua vez, é marcada pela paralisia — como se o sujeito estivesse preso em um tempo que não passa.
4. Desenvolvimentos Pós-Freudianos
A psicanálise não parou em Freud. Autores posteriores expandiram e aprofundaram essas noções, oferecendo novas perspectivas clínicas e teóricas.
4.1. Melanie Klein e a “Posição Depressiva”
Para Melanie Klein, a melancolia está ligada à posição depressiva — uma fase do desenvolvimento infantil em que a criança começa a perceber que o mesmo objeto (geralmente a mãe) é ao mesmo tempo bom e mau. A melancolia surge quando há dificuldade em integrar essa ambivalência, levando à culpa excessiva e ao medo de ter destruído o objeto amado com seus impulsos agressivos.
4.2. Jacques Lacan: A Falha na Simbolização
Lacan retoma a melancolia como uma falha no registro simbólico. Para ele, o melancólico é aquele que não consegue inscrever a perda na linguagem — o objeto perdido permanece como um real não simbolizável, um vazio que paralisa o sujeito. Nesse sentido, a melancolia revela um fracasso da função paterna (que introduz a lei e a separação) e uma fixação ao desejo do Outro.
4.3. André Green e o “Narcisismo de Morte”
O psicanalista francês André Green propôs o conceito de “narcisismo de morte” para descrever a melancolia contemporânea. Aqui, o sujeito não se apega ao objeto perdido, mas ao nada que ele deixou — ao vazio em si. É como se o melancólico escolhesse o nada em vez do desejo, recusando-se a investir em novos objetos por lealdade ao que se foi.
5. Considerações Finais: Sofrimento e Possibilidade de Cura
Angústia e melancolia, na visão psicanalítica, não são meros “transtornos” a serem eliminados, mas manifestações simbólicas de conflitos profundos. A angústia nos alerta para desejos que nos assustam; a melancolia nos revela perdas que não pudemos elaborar.
A psicanálise não promete a erradicação do sofrimento — até porque, como Freud mostrou em O Mal-Estar na Civilização (1930), o sofrimento é constitutivo da condição humana. O que oferece é um espaço para dizer, simbolizar e transformar esse sofrimento. No trabalho analítico, o sujeito pode, pouco a pouco, reconhecer o que perdeu, integrar suas ambivalências, e redirecionar sua libido para a vida — em vez de mantê-la aprisionada no passado ou paralisada pelo medo.
Em tempos marcados pela pressa, pela negação da dor e pela medicalização do mal-estar, retomar essas reflexões psicanalíticas é um ato de resistência — e de esperança.
Referências Bibliográficas
FREUD, S. (1917). Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. In: Edição Standard Brasileira, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Standard Brasileira, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, M. (1940). A contribuição da psicanálise à etiologia dos estados maníaco-depressivos. In: Contribuições à Psicanálise. São Paulo: Mestre Jou, 1979.
LACAN, J. (1959). O Seminário, Livro 6: O Desejo e sua Interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
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ABRAMOVICH, F. (2006). Melancolia e Subjetividade. São Paulo: Escuta.
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